Marco Antonio e a Pílula do Acidente.

Posted: quinta-feira, 26 de agosto de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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Marcus ligou. Pediu urgência no envio do modem. Ele viajaria às 21h30. Avisei a Gil. Acreditei que ele não esqueceria, mas partiu sem levar a peça. Deixou-a guardada numa gaveta, sob papéis. Liguei e os telefones, inexplicavelmente, deixaram de funcionar. Consegui um número de uma vizinha, passei a mensagem. Gil pediu para eu aguardar na porta. Marcus não quis esperar e veio, ele mesmo, buscar o objeto. Quando Gil chegou, fui até ele. A porta, então, bateu. Minhas chaves ficaram dentro. As de Gil também. Presumi que, em poucos minutos, a empresa de segurança iria fazer contato, não teria respostas, enviaria a ronda policial e o circo estaria armado. Nossos telefones continuavam sem funcionar. Buscamos Railane. Fomos atrás de chaveiros. Encontramos um que precisaria de transporte. Ele demorou a descer as escadas. O tempo passava, mas eu estava estranhamente calmo. Conheço bem esta sensação de defesa. Algo estava acontecendo.
 Seguimos em outra direção para deixar Railane. Um cruzamento. Num átimo de segundo, um motociclista em alta velocidade se chocou com o nosso carro. "O homem é o homem e a sua circunstância", me veio à mente em flash. Pensei em Deus. Meus olhos fecharam. Não sei de onde surgiram tantas pessoas. Aquela rua parecia escura e abandonada minutos antes. Os burburinhos todos estavam me incomodando. As luzes também. Eu só conseguia olhar o todo, a dinâmica da vida e sua concepção. E meu corpo só sentia os permanentes processos de mudança. Um por um. Mesmo no termo da existência, sou um poeta à moda antiga. Com amor à vida. "O amor que está vivo nunca está pronto. O amor que está vivo está sempre em movimento". Eu forçava algum gesto, como se algo me impelisse para o que me afigura belo e grandioso. Entrecortadas, pessoas e cenas iam e vinham, feito sombras. A noite de aniversário de Diego. Sons de uma garrafa de vinho à deriva no bagageiro. Marcelo interpelando transeuntes na rodoviária em madrugada plena. Um bilhetinho dirigido a Leo. Sua expressão, sua silhueta inteira à meia-luz. As incitantes conversas com Yves e Manú. As vitórias de minha mãe. O intimismo da casa de Raquel. Lucas chorando. Di chorando. Trechos de voz de Janelle. Palavras esparsas, como sienista. Uma vontade inexplicável de estar numa piscina, mergulhado por inteiro. A voz de Jhon ao telefone dizendo "Ei, rapaz!". Uma inscrição de camiseta: "às vezes eu tento ser normal". O gato mesclado que deitou ao meu lado. Eu o vi me observando. Um menino magro passando por uma borboleta e um velho examinando. Vi meu passado completo e reflexos do futuro. Vi Caio falando sem parar. Suas frases volvendo repetidas. "Sim, eu acredito. Sim, eu acredito". Havia gosto de sangue em minha boca. E de Cosmopolitan. Gil estava ao meu lado. Gritava censuras injuriosas ao motociclista. Não lembro quem, mas alguém sussurrou: "Você é a única companhia agradável para esta noite. Por favor, fique!". Senti minhas costas marcadas, doídas. Meu irmão veio ao meu encontro. Eu estava no intermédio entre o céu e o inferno. Eu e minhas loucuras sãs, no limbo, decidindo meu destino. Com os olhos ainda fechados, nestes segundos intermináveis, vi uma placa de mármore numa porta. "Docere, delectare, movere", estava escrito em letra cursiva. Na iminência do tempo, respirei. Eu havia escutado a batida. Olhei para o lado inverso e vi o corpo do motociclista no chão. Saí do carro e corri em sua direção. Peguei em seu ombro e perguntei se estava bem. Gil o chamava de louco. "A culpa é minha", respondeu o homem. Suspirei, serenado. "Aqui está minha vida - esta areia - tão clara, com desenhos de mudar dedicados ao vento". O chaveiro, enfim, abriu a porta.

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