Marco Antonio e a Pílula do Esquecimento.
Posted: segunda-feira, 23 de agosto de 2010 by Som da Tribo in Marcadores: Pílulas
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"Descarta os conceitos. Esquece o que você já viu, ouviu, cheirou e passou a língua - nada mais está selado". Nem o banho que tomo todo eleito dia parece ter uma síntese. Escolho os preparados de beleza a depender do dia ou noite. Distribuo ordenadamente sobre a bacia de louça. Experimento no tato a água quente do regador. Respiro o vapor. Ligo o rádio cipó. Toco o corpo, a mente, o entendimento. Deixo a forma molhar, da nuca ao dorso, das costas duradouras ao derrière, da parte interna das coxas à planta dos pés. De tudo escorre, lágrima, sorriso, gozo e dança. Meu banho não é liturgia. É uma embriaguez umedecida sem cerimônia. Uma sentença nua de júbilo sobre os membros com gosto de azeite. De jambu e tucupi. Tomate seco temperado, castanhas e leite condensado. De azeviche de chocolate. Meu corpo é gosto. Parte de uma charada que define uma inteira palavra. É uma ideia abstrata para os demais, e tão concreta para mim quanto o ar que seca os fios de cabelo. Por hora, macios. Caindo corredios sobre o rosto de poros abertos. Borrifo perfume de aroma penetrante e altivo. Notas de lima, bergamota, limão e mandarina. Visto-me ao estilo très chic. Argolas, boina de abas curtas, cachecol de listras, cardigã, calça reta de afaiataria e uma roupa de baixo moldada para ressaltar o maço...
... "Você é um rapaz de sorte", disse alguém à boca que beijei nesta noite. Senti, no reflexo do ósculo, o sabor do meu hálito. Parecia água doce, com um vento morno soprando insistente. Minha língua parando o tempo, penetrando a outra ilha deserta, mergulhada em saliva, por entre os lábios, pelas faces internas, percorrendo o véu palatino. Vinícius se aproxima e pergunta ao pé do ouvido: "Esta boca que você beija é a mesma da semana anterior?". Meu beijo é um chamado ao ócio. Não tem tempo demarcado. Tal qual minha nova idade, sem medida de duração. Sou sujeito a mudanças sucessivas de substância interior. Só aprecia quem também tem sentidos despertos assim. Como os que fizeram, para mim, um jantar. Serviram uma quiche Lorraine, queijos, nozes, vinhos e Speech Debelle. Tam me deu seu coração trôpego. Indira, uma voz baixa. Bárbara, curvas. Milly, meu benzinho. Lu, seu fluido transparente, levemente alcalino, segregado e derramado. Meu irmão me deu um fim de noite. Leo, palavras hábeis em dia novo. O que cedi? Um lapso de tempo futuro onde dormi sozinho, na minha casa, onde se come da minha própria comida cara. E a frase de Franca me contrariando: "Sim, é preciso tempo". Quando notei, era domingo. Triste dia de chuva fina. Caiu a tempestade e meu espírito se quebrou. Ansiava, de alguém, um convite para uma casa nas montanhas, um texto corrente e despretensão. O tempo esclareceu e descobri meu nome. Um achado no cosmos, uma canção de amor. "Nobody is so queer as folk", repetiu um homem solitário no reflexo do espelho. Segurei suas mãos, em desdobramento, mas não vi o rosto. Outro, um encosto, deitou sua sombra sobre minha carne e quis um conluio. Um terceiro, levitando, levou-me a uma travessa estreita e antiga, de onde se ouvia o som de uma caixa sonora. "O piano emudeceu, como emudeceram as fotos de rostos conhecidos que o enfeitavam", escreveu Isis. Descarto, pois, os conceitos. Misturar branco com preto pode dar algo muito mais interessante que cinza. De tudo que já cheirei, ouvi, lambi ou vi, esqueci a cor. Ainda assim, só ou em par, sei que serei capaz de alguma coisa realizar.mostrar mais
... "Você é um rapaz de sorte", disse alguém à boca que beijei nesta noite. Senti, no reflexo do ósculo, o sabor do meu hálito. Parecia água doce, com um vento morno soprando insistente. Minha língua parando o tempo, penetrando a outra ilha deserta, mergulhada em saliva, por entre os lábios, pelas faces internas, percorrendo o véu palatino. Vinícius se aproxima e pergunta ao pé do ouvido: "Esta boca que você beija é a mesma da semana anterior?". Meu beijo é um chamado ao ócio. Não tem tempo demarcado. Tal qual minha nova idade, sem medida de duração. Sou sujeito a mudanças sucessivas de substância interior. Só aprecia quem também tem sentidos despertos assim. Como os que fizeram, para mim, um jantar. Serviram uma quiche Lorraine, queijos, nozes, vinhos e Speech Debelle. Tam me deu seu coração trôpego. Indira, uma voz baixa. Bárbara, curvas. Milly, meu benzinho. Lu, seu fluido transparente, levemente alcalino, segregado e derramado. Meu irmão me deu um fim de noite. Leo, palavras hábeis em dia novo. O que cedi? Um lapso de tempo futuro onde dormi sozinho, na minha casa, onde se come da minha própria comida cara. E a frase de Franca me contrariando: "Sim, é preciso tempo". Quando notei, era domingo. Triste dia de chuva fina. Caiu a tempestade e meu espírito se quebrou. Ansiava, de alguém, um convite para uma casa nas montanhas, um texto corrente e despretensão. O tempo esclareceu e descobri meu nome. Um achado no cosmos, uma canção de amor. "Nobody is so queer as folk", repetiu um homem solitário no reflexo do espelho. Segurei suas mãos, em desdobramento, mas não vi o rosto. Outro, um encosto, deitou sua sombra sobre minha carne e quis um conluio. Um terceiro, levitando, levou-me a uma travessa estreita e antiga, de onde se ouvia o som de uma caixa sonora. "O piano emudeceu, como emudeceram as fotos de rostos conhecidos que o enfeitavam", escreveu Isis. Descarto, pois, os conceitos. Misturar branco com preto pode dar algo muito mais interessante que cinza. De tudo que já cheirei, ouvi, lambi ou vi, esqueci a cor. Ainda assim, só ou em par, sei que serei capaz de alguma coisa realizar.mostrar mais






