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Marco Antonio e a Pílula do Segredo.

Posted: segunda-feira, 6 de setembro de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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"Você é cômico", desdenhou Diego da minha filosofia. "O que sou é mítico, quase um ícone", respondi atrevido. "Você é pretensioso, isto sim", provocou. "Nada. Sou um moderno intelectual que vai ser rememorado", autoironizei. "Megalomaníaco!", disse em tom mais alto. "Sou um otimista, com autoestima na medida", tentei amenizar. "Tomara, então, que você seja o que, afinal, pensa ser", concordou com certo sarcasmo. "Eu não penso ser, Diego. Eu sou", respondi, mantendo a serenidade. "Desejo, de coração, que você jamais descubra que somente otimismo é pouco", falou como um falso profeta. "Otimismo é só a porta de entrada. E tenho a chave dessa porta. Posso abrir a hora que eu desejar", tentei encerrar. "Oui, oui", riu. "Je peux vos aider à être comme moi", finalizei à francesa. Sinto-me como Fernando Pessoa, "nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo". Busco a insígnia das redes sociais. Quero me fazer presente, franco, sem restrições e até mesmo venerado. Quem não quer ser um emblema publicado depois da história? Quem não quer receber uma ligação de alguém que há tempos não vê, só para ouvir: "De repente, saudade"? Faço esta reverência de sagração a Rose. E sigo a caminho do meu mirante autodenominado. Passam uns, ficam outros, passa Arlei, fica um tino de ansiedade não comedida. No afã desta incoerência, passa, ao meu lado, a vida, como os hebreus atravessando o Jordão. Abriu-se um vão entre o real e o imaginário...

Marco Antonio e a Pílula do Acidente.

Posted: quinta-feira, 26 de agosto de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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Marcus ligou. Pediu urgência no envio do modem. Ele viajaria às 21h30. Avisei a Gil. Acreditei que ele não esqueceria, mas partiu sem levar a peça. Deixou-a guardada numa gaveta, sob papéis. Liguei e os telefones, inexplicavelmente, deixaram de funcionar. Consegui um número de uma vizinha, passei a mensagem. Gil pediu para eu aguardar na porta. Marcus não quis esperar e veio, ele mesmo, buscar o objeto. Quando Gil chegou, fui até ele. A porta, então, bateu. Minhas chaves ficaram dentro. As de Gil também. Presumi que, em poucos minutos, a empresa de segurança iria fazer contato, não teria respostas, enviaria a ronda policial e o circo estaria armado. Nossos telefones continuavam sem funcionar. Buscamos Railane. Fomos atrás de chaveiros. Encontramos um que precisaria de transporte. Ele demorou a descer as escadas. O tempo passava, mas eu estava estranhamente calmo. Conheço bem esta sensação de defesa. Algo estava acontecendo.

Marco Antonio e a Pílula do Esquecimento.

Posted: segunda-feira, 23 de agosto de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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"Descarta os conceitos. Esquece o que você já viu, ouviu, cheirou e passou a língua - nada mais está selado". Nem o banho que tomo todo eleito dia parece ter uma síntese. Escolho os preparados de beleza a depender do dia ou noite. Distribuo ordenadamente sobre a bacia de louça. Experimento no tato a água quente do regador. Respiro o vapor. Ligo o rádio cipó. Toco o corpo, a mente, o entendimento. Deixo a forma molhar, da nuca ao dorso, das costas duradouras ao derrière, da parte interna das coxas à planta dos pés. De tudo escorre, lágrima, sorriso, gozo e dança. Meu banho não é liturgia. É uma embriaguez umedecida sem cerimônia. Uma sentença nua de júbilo sobre os membros com gosto de azeite. De jambu e tucupi. Tomate seco temperado, castanhas e leite condensado. De azeviche de chocolate. Meu corpo é gosto. Parte de uma charada que define uma inteira palavra. É uma ideia abstrata para os demais, e tão concreta para mim quanto o ar que seca os fios de cabelo. Por hora, macios. Caindo corredios sobre o rosto de poros abertos. Borrifo perfume de aroma penetrante e altivo. Notas de lima, bergamota, limão e mandarina. Visto-me ao estilo très chic. Argolas, boina de abas curtas, cachecol de listras, cardigã, calça reta de afaiataria e uma roupa de baixo moldada para ressaltar o maço...

Marco Antônio e Suas Pílulas

Posted: segunda-feira, 26 de julho de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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PÍLULA 51


Estou, novamente, dobrando o Cabo da Boa Esperança. Vislumbrando, desta vez, minha tão almejada descoberta à Índia. Aliás, esperança é um nome tão bonito. É aquilo que se espera, desejando. Aspiro, portanto, ver o encanto do meu rosto no espelho, ao amanhecer, e satisfazer a imagem deste impulso. Porque minha face, na verdade, tem rugas tal qual se fosse a de um relógio de pulso. Envelheço a cada minuto. E se eu parar a observar, estou até grisalho, cinzento. No meio da tarde de hoje, ao meio tempo de tormentos, fui chamado de tio. O irmão do pai ou da mãe com relação aos filhos destes. Eu, que nem filho tenho de todo meu. Alguém se dispõe?

Marco Antonio e suas Pílulas. Pílula 49

Posted: terça-feira, 6 de julho de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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Acordei. O toque de alvorada me tirou de um sonho não tão luminoso. Nem por isso estava sobressaltado. Esfreguei os olhos antes de encarar a luz da manhã que invadia o quarto pelas frestas da cortina bege, única peça a adornar meu cômodo. Minha mãe não deveria ter vendido a tela azul, da cor das paredes, que levava sua assinatura. Um bosque com arvoredo basto e o solo cheio de neve. Levantei para me acostumar ao dia. A música irritante do despertador não precisou ser ativada, logo também despertei meus sentimentos. Afinal, era domingo, pé de cachimbo. Gosto de me ver seminu na luz deste dia. Pareço, não pálido, mas caucásico, puro e jovem. Meu rosto, com os olhos ainda semicerrados, parece mais belo, como que visto sob névoa. Um rosto difícil de entender, mas desperto do habitual letargo da semana. Em meio tempo, recordei cenas dos sonhos dessa última noite. Eu estava no Tororó, na Capelinha, bati à porta da casa dos meus tios. Tábada me atendeu com frieza. Vi meu tio Alfredo ao longe, apenas acenando. Meu primo Alexandre não dirigiu a palavra a mim.

Marco Antônio e suas Pílulas

Posted: quarta-feira, 23 de junho de 2010 by Som da Tribo in Marcadores:
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PÍLULA 48

Reza a lenda que os gatos foram criados quando a Arca de Noé ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem. Do espirro dos leões se formou o gato. "Anjo da noite", alguém disse que sou. Ao dia, sou felis silvestris catus. Doméstico, mas não domesticado. Quando desejo, sigo meu dono. Quando não, vou à feira em dia de sábado, ao lado de minha mãe felídea. Ex-mulher de pescador de ilusões, nunca quis manter gatos em casa. Nunca houve, para minha mãe, desastres no mar. Entre gentes, cheiros, frutas e verduras, eu estava ali, ao lado dela, ratos a caçar. Bufo, mio, resbuno. E ronrono para meu irmão. Gato branco à noite, com profundos olhos verdes castanhos. Houve época em que nos arranhamos. Verbo e pedras em tempo passado. "Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo", escreveu Pessoa. Gatos também sonham e esguicham. Eu mesmo sonhei com Jhon. O mesmo abraço, sussurros desconexos e espaço de proteção. Bom presságio, então. No folclore americano, gato que sonha com gato é sinal de bom destino. Eu, felino, pouco caseiro, no mundo real e treteiro, conheci dois urbanos. Matheus, o gato preto faceiro. Predador natural de roedores, pássaros e lacertíleos.