Marco Antônio e suas Pílulas
Posted: quarta-feira, 23 de junho de 2010 by Som da Tribo in Marcadores: Pílulas
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PÍLULA 48
Reza a lenda que os gatos foram criados quando a Arca de Noé ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem. Do espirro dos leões se formou o gato. "Anjo da noite", alguém disse que sou. Ao dia, sou felis silvestris catus. Doméstico, mas não domesticado. Quando desejo, sigo meu dono. Quando não, vou à feira em dia de sábado, ao lado de minha mãe felídea. Ex-mulher de pescador de ilusões, nunca quis manter gatos em casa. Nunca houve, para minha mãe, desastres no mar. Entre gentes, cheiros, frutas e verduras, eu estava ali, ao lado dela, ratos a caçar. Bufo, mio, resbuno. E ronrono para meu irmão. Gato branco à noite, com profundos olhos verdes castanhos. Houve época em que nos arranhamos. Verbo e pedras em tempo passado. "Pedras no caminho? Guardo todas. Um dia vou construir um castelo", escreveu Pessoa. Gatos também sonham e esguicham. Eu mesmo sonhei com Jhon. O mesmo abraço, sussurros desconexos e espaço de proteção. Bom presságio, então. No folclore americano, gato que sonha com gato é sinal de bom destino. Eu, felino, pouco caseiro, no mundo real e treteiro, conheci dois urbanos. Matheus, o gato preto faceiro. Predador natural de roedores, pássaros e lacertíleos.
E Márcio, gato desleal e simulado. Se opondo à verdade, disse-me: "Você é um animal de estimação egoísta, solitário, medroso e bem disfarçado". Qual nada, sou é sagrado. No antigo Egito, mantinham-me em templos. E previam o futuro os meus movimentos. Eis meu furo em sua veia. Na ceia noturna da procissão, por entre sacerdotes salesianos, freiras de túnica cinza, fiéis e cânticos, um alvo dinictis me examinou com atenção. Parecia um cândido marinheiro a predizer sua viagem na observação. Orei. E tive a impressão de ver Nalim. Vestida de Freya, numa carruagem puxada por dois gatos, já feiticeira. Na esquina à meia-luz do poste, Wesley se esgueira. Gato de rua, viciado em dorflex, sexo e DVD pirata. Chega a madrugada, ele, sorrateiro, caminha por aqui e acolá. Eu, angorá sob a neblina, me despeço, sumindo no sereno. Pela manhã, espreguiço, passo a língua sobre meu corpo, bebo meu próprio leite. Tal qual assegura a mitologia, saio à rua feito animal de companhia. Vejo uma pequena criança feliz sobre os ombros do pai. Pequeno Miacis, me fez sentir falta do meu. É fato que hoje, crescido, vivo olhando os reflexos nos vidros. E até me sinto confortável em meu agasalho vermelho cobrindo meus pêlos. Fui à sala de Chaeles, beijei o gato da família, pedi um lugar à mesa e o paguei com sal. Ultimamente, estou a contar moedas, trabalhando para viver, gastando minhas sete vidas. Eu e meu estranho coração pusilânime. "Eric, o gato e eu". Se olho ao lado, feito garboso siamês, vejo Indrid, Tiaguinho ou Diego, bela casta, ao lado do punk bengal, da pin up chartreux, do cabeludo himalaio, do franjão persa de raça. Se volto o olhar ao meu próprio lar, ao meu frágil coração, vejo um gato preto e branco contra o âmbar do portão. De personalidade independente, eu, gato selvagem do fértil crescente, quero mais é saborear vinho quente. Meu instinto caçador. Essa é minha história, mesmo que de amargar. Há tempos não sei o que é um bom prato. No fundo, no fundo, eu sou mesmo um negro gato.
E Márcio, gato desleal e simulado. Se opondo à verdade, disse-me: "Você é um animal de estimação egoísta, solitário, medroso e bem disfarçado". Qual nada, sou é sagrado. No antigo Egito, mantinham-me em templos. E previam o futuro os meus movimentos. Eis meu furo em sua veia. Na ceia noturna da procissão, por entre sacerdotes salesianos, freiras de túnica cinza, fiéis e cânticos, um alvo dinictis me examinou com atenção. Parecia um cândido marinheiro a predizer sua viagem na observação. Orei. E tive a impressão de ver Nalim. Vestida de Freya, numa carruagem puxada por dois gatos, já feiticeira. Na esquina à meia-luz do poste, Wesley se esgueira. Gato de rua, viciado em dorflex, sexo e DVD pirata. Chega a madrugada, ele, sorrateiro, caminha por aqui e acolá. Eu, angorá sob a neblina, me despeço, sumindo no sereno. Pela manhã, espreguiço, passo a língua sobre meu corpo, bebo meu próprio leite. Tal qual assegura a mitologia, saio à rua feito animal de companhia. Vejo uma pequena criança feliz sobre os ombros do pai. Pequeno Miacis, me fez sentir falta do meu. É fato que hoje, crescido, vivo olhando os reflexos nos vidros. E até me sinto confortável em meu agasalho vermelho cobrindo meus pêlos. Fui à sala de Chaeles, beijei o gato da família, pedi um lugar à mesa e o paguei com sal. Ultimamente, estou a contar moedas, trabalhando para viver, gastando minhas sete vidas. Eu e meu estranho coração pusilânime. "Eric, o gato e eu". Se olho ao lado, feito garboso siamês, vejo Indrid, Tiaguinho ou Diego, bela casta, ao lado do punk bengal, da pin up chartreux, do cabeludo himalaio, do franjão persa de raça. Se volto o olhar ao meu próprio lar, ao meu frágil coração, vejo um gato preto e branco contra o âmbar do portão. De personalidade independente, eu, gato selvagem do fértil crescente, quero mais é saborear vinho quente. Meu instinto caçador. Essa é minha história, mesmo que de amargar. Há tempos não sei o que é um bom prato. No fundo, no fundo, eu sou mesmo um negro gato.






