Marco Antônio e Suas Pílulas
Posted: segunda-feira, 26 de julho de 2010 by Som da Tribo in Marcadores: Pílulas
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PÍLULA 51
Estou, novamente, dobrando o Cabo da Boa Esperança. Vislumbrando, desta vez, minha tão almejada descoberta à Índia. Aliás, esperança é um nome tão bonito. É aquilo que se espera, desejando. Aspiro, portanto, ver o encanto do meu rosto no espelho, ao amanhecer, e satisfazer a imagem deste impulso. Porque minha face, na verdade, tem rugas tal qual se fosse a de um relógio de pulso. Envelheço a cada minuto. E se eu parar a observar, estou até grisalho, cinzento. No meio da tarde de hoje, ao meio tempo de tormentos, fui chamado de tio. O irmão do pai ou da mãe com relação aos filhos destes. Eu, que nem filho tenho de todo meu. Alguém se dispõe?
Porque minha descendência é tão-somente o primeiro dos meus sofrimentos. E minha consequência a tal tratamento é sempre estupor. Ou uma expressão de carinho. Velho? Eu? Recuso o mérito mesquinho. Velho é o mundo. E eu sou só um homem profundo diante de Deus. Sou um frame de segundo. Estou ainda aprendendo a perder a glória, quiçá o anseio de ganhar tempo na história. O que não quero é perder o vigor juvenil. Inverta-se, então, o número de minha principiante idade. Porque meu semblante, no fim das contas, transparece 23, tamanha a vivacidade. Sou um recém-chegado. Não, não é narcisismo enraizado. Estou a dançar sempre entre feitiços, vampiros, bacantes, lobos, morfos, mortos ou vivos, entre outros entes, que termino por roubar sua força. Furto o brilho nos olhos de Luan. Retribuo o beijo vermelho doce de Priscila. Ponho a carga das mudanças de Márcio sobre os ombros. E, de Paulo e Alexandre, subtraio para mim, outra vez, esperança dos escombros. De fazer passar. Que seja os móveis de lugar, a tinta da caneta riscando as linhas das minhas mãos, as palavras perfumadas com almíscar ou o imutável curso do tempo, do então. Cumpro um ciclo e, sem precisar decidir, começo outro por dentro. Todo aniversário meu é assim, fico conectado em mim. Restituo minha juventude, ao tempo em que o espírito se enche de mansuetude. E sorrio. "Amo este seu sorriso. Dá uma gigantesca saudade", revelou Jhon. Especialmente se for sob o sol dos dias frios, não é? É que o céu está tão nublado ultimamente. E eu fico a recordar as águas passadas, os montes de gente, eu sempre a correr buscando um motivo decente pra gritar. O que sei é que esta saudade torrente não leva a nenhum lugar, Jhon. Razão maior é o tempo presente, embora, pra ser feliz, não precise motivo. "Você é um homem interessante", alguém disse. Sim, sou um homem, de fato. Daqueles que acreditam o quão delicado é viver. Por isso esse meu riso largo e longo, que não quero perder, nem envelhecer. Nesses últimos trinta anos, fechei meus olhos e vi pessoas com quem convivi. E vi minha mãe e pai mais velhos.
Lugares perdidos, ruas desertas, folhas ao chão e tempos que não voltam mais. Palavras, sonhos, modos de ver a vida. Vi a casa na qual me criei, a escola, o quintal, o jardim e minha voz a sussurrar. No silêncio das horas me vi. "É o vento", dizia minha mãe para abrandar. Olha, mãe, o que este vento trouxe antes da chuva chegar. Quero que passe e que eu permaneça. E que chegue o estio, o verão, e eu me apaixone. Assim, tão derepente quanto a Califórnia, que eu ame. E que, no mapa do meu nada, eu acredite neste dia em que eu encontrar alguém com ternura e razão pra também me amar. "Eu que não sei quase nada do mar, descobri que não sei nada de mim". Que presente, enfim, eu gostaria de ter? Este, o de não morrer.






