O ABC de quem não sabe viver sem rock
Posted: terça-feira, 13 de julho de 2010 by Distintivo Blue - YouTube in Marcadores: CulturaNesse curioso dia de efeméride do ROCK (considerar que existem, dentre os vários tipos de, digamos, opositores, os que acreditam que todo dia é dia de rock), proponho lúdico exercício: elaboração de álbum com instantâneos fundamentais, rasante coletivo no abecedário pessoal dos “bons sons” através de uma seleção de momentos transformadores. Transcendentes. Ou simplesmente divertidos.
Recorte em alta velocidade com verbetes despachados de primeira, sem muito tempo para pensar. Amanhã pode ser uma outra lista.Para efeitos desse dia 13, vale o escrito.
A – Alice Cooper e o disco Muscle of Love. Num artigo para a cultuada revista General, “decidi” que o primeiro disco da coleção foi esse, de 73 – um ano antes da apresentação do músico em terras brasileiras. Não fui – tinha 10 anos! – mas ganhei o disco e… nada mais foi como antes.

Alice Cooper foi o primeiro disco da coleção e Elvis foi o primeiro ídolo
B – Blondie e o bolachão Wet Lips and Shapely Hips – bootleg duplo de show no Hammersmith Odeon, em 81, com Robert Fripp nas guitarras de “Heroes”, do Bowie. Meu primeiro pirata, comprado na mítica loja Punk Rock do centro de SP.
C – (A) Cor do Som, no parque do Ibirapuera (SP), abril de 1980. Meu primeiro grande evento de rock, meu primeiro woodstock pessoal. Esperavam 4 mil pessoas. Dizem que éramos 60 mil! Muita confusão, polícia, cheiro de mato queimado, futebol coletivo improvisado, gente caindo das árvores… E o rock tropical-progressivo correndo solto pelo parque.
D – Diamanda Galás, dona da Voz, seus discos, suas intensas apresentações ao vivo, a alegria desmedida de tê-la entrevistado longamente e a incontornável tristeza de ter perdido o material dessa entrevista antes que ela fosse ao ar e/ou pudesse ter sido gravada como arquivo – só para piorar, até tenho minha teoria de quem foi o vacilão que apagou a fita… (ps: sobraram apenas algumas fotos)
E – Elvis é Elvis é Elvis. Primeiro ídolo, poster na parede, diversão com os filmes (Saudades de um pracinha!) e muitas emoções com os discos – comecei pelo final, pela sua fase anos 70. Basicamente furei o duplo Aloha from Hawaii.
F – Festivais e mais festivais: uma galáxia de sons e figuras, flashbacks e impressões, marcas indeléveis. Cada pequeno retrato, uma grande história. Só uma palavra: Juntatribo.
G – Greek Theatre, Berkeley, California. Churrasco de 4 de julho (93) com Basehead, Firehose, Stone Temple Pilots (com o pai de Scott Weiland na plateia) e os espetaculares Butthole Surfers. Segundo o texano do cachimbo colorido sentado à minha frente, dos 20 e tantos shows que ele já tinha visto dos conterrâneos, aquele era o melhor.
H – Hex Enduction Hour, The Fall safra 82. Nesse capítulo da incrível (e em pleno andamento) saga da banda de Manchester, encontramos nossos anti-heróis na Islândia – trata-se de registro do tipo fundamental na discografia do grupo de Mark Smith e provocou estragos estéticos irreparáveis na cena islandesa.

Cartaz do Churrasco de 4 de julho com Basehead, Firehose e Stone Temple Pilots
I – Indians in Moscow no Upstairs at Eric’s. Nesse clube instalado no último andar de um estacionamento vertical da cidade litorânea de Bournemouth conferi, no ano de 84, meus primeiros shows ingleses. O da banda de Adele Nozedar, do hit da galinha do sexo trocado, foi o segundo. Entrei até para o fã-clube…
J – Joe Strummer. Tirei uma foto com a lenda gente fina no backstage de um festivalzão no começo do milênio. Não tenho. Porque quem tirou NUNCA ME DEU uma cópia.
K – Kraftwerk e o cassete de Radioactivity. Fui de skate comprar o meu, num supermercado da Pompéia, depois de pirar nos sons estranhos que emanavam da casa vizinha – ocupada por uns caras da pesada para uma festa idem. O som era tão incrível que tomei coragem, subi no muro e perguntei o que era aquilo? Um sujeito simpático me mostrou o cassete e disse onde encontrar. Obrigado mais uma vez.
L – (The) Last Waltz, Scorsese e The Band: possivelmente o filme de show mais legal já feito. Simples assim.
M – Metamorfose Ambulante. Raul Seixas. Foi duro dar adeus ao maluco beleza naqueles ultimos shows com o Marcelo Nova. Mas foi de uma alegria transbordante cantar com a galera as musicas enquanto Raul meio que olhava emocionado…
N – Nick Cave & Nick Drake.
O – Ocean of Sound, de David Toop, um dos livros de “bons sons” mais legais da divisão sônica da biblioteca – o cara é um daqueles craques que provocam até uma certa aflição. Erudição e piração nas boas medidas. A salvação pela palavra – pela crítica musical, acredite se quiser.
P – Pânico em SP e Pretobrás. Clemente e Itamar. Cronistas viscerais e seus títulos fundamentais para a boa, real sacação de uma certa São Paulo brasileira de todos nós.
Q – Queen no Estádio do Morumbi, março de 1981. Ainda tenho a camiseta do show (promoção da Rádio Cidade, que transmitiu ao vivo). E o ingresso. E as revistas de época (nacionais e gringas) com fotos da visita brasileira. E a gravação, claro.
R – Rádio, o mais legal dos meios para a difusão dos “bons sons”.
S – Sigur Rós e a turma islandesa. Leia o livro(!) e mergulhe de cabeça nessa cena no mínimo surpreendente. O cardápio de especiarias musicais da terra da Björk merece sempre atenção – seja lá qual for sua preferência formal, é bem possível que tenha um islandês fazendo de um jeito estranho, instigante.
T – Third Ear Band e a alegre música do cosmos. A cultuada e algo obscura banda parapsicodélica inglesa foi uma das entrevistadas no meu antigo programa de rádio Rock Report (89fm) – entrevistas depois reunidas em livro. O saudoso Glen Sweeney foi o único a me mandar um cartão postal de agradecimento pela entrevista um tempinho depois.
U – Unsane e Neurosis ao vivo no Great American Music Hall de São Francisco. Outubro de 1993. Balada de aniversário da etiqueta Alternative Tentacles, do sr. Jello Biafra. Basicamente insano!

Zappa porque MUSIC IS THE BEST e a voz de Diamanda Galás
V – Virgin Prunes e Gavin Friday. O lado B da turma do Bono.
W – Wander Wildner e Replicantes. A tentação de chamar o Wander de o nosso… sei lá, Shane Macgowan ou algo parecido é até grande, mas significa também não sacar direito qual é a do nosso bardo rocka’n’rollero. Para consumir, sem moderação, nas intensas baladas ao vivo ou na solidão do quarto escuro.
Y – Young Gods e como uma das bandas mais poderosas de todos os tempos é meio brasileira. Um salve ao mais verde e amarelo dos suiços, Franz Treichler, e sua enxuta guerrilha de desconstrutores, remodeladores de certa canção bluseira.
Z – Zappa. Porque MUSIC IS THE BEST.
O X tá aqui, como variável dessa equação sônico-existencial, como X da questão: tem a ver com o envolvimento de cada um com esse tal de rock. É medida individual e intransferível. Ninguém tasca. Vale para aquele que acha que o rock morreu e para aquele que não sabe o que é viver sem ele. Tem um mundo aí no meio.





