Marco Antonio e suas Pílulas. Pílula 49
Posted: terça-feira, 6 de julho de 2010 by Som da Tribo in Marcadores: Pílulas
0
Acordei. O toque de alvorada me tirou de um sonho não tão luminoso. Nem por isso estava sobressaltado. Esfreguei os olhos antes de encarar a luz da manhã que invadia o quarto pelas frestas da cortina bege, única peça a adornar meu cômodo. Minha mãe não deveria ter vendido a tela azul, da cor das paredes, que levava sua assinatura. Um bosque com arvoredo basto e o solo cheio de neve. Levantei para me acostumar ao dia. A música irritante do despertador não precisou ser ativada, logo também despertei meus sentimentos. Afinal, era domingo, pé de cachimbo. Gosto de me ver seminu na luz deste dia. Pareço, não pálido, mas caucásico, puro e jovem. Meu rosto, com os olhos ainda semicerrados, parece mais belo, como que visto sob névoa. Um rosto difícil de entender, mas desperto do habitual letargo da semana. Em meio tempo, recordei cenas dos sonhos dessa última noite. Eu estava no Tororó, na Capelinha, bati à porta da casa dos meus tios. Tábada me atendeu com frieza. Vi meu tio Alfredo ao longe, apenas acenando. Meu primo Alexandre não dirigiu a palavra a mim.
O outro, Toddy, chorando, disse que não apreciava minha presença. A querida Nazaré apenas esboçou meio sorriso. Estavam todos à mesa de jantar e eu não parecia bem-vindo. Entretanto, minha tia Zézé, aproximou-se, abraçou-me e me deu sua bênção. Vi mariposas de variadas formas e cores. Estive num vale gelado, feito de montes de lágrimas. Levitei sobre a cidade, recobrei os sentidos e, outra vez, acordei. Esfreguei os olhos novamente, vesti um pijama verde-musgo e olhei em volta. "A vida muda para quem muda", pensei. Decidi, então, organizar minha alcova, meu pequeno mundo de dormir, minha mais completa zona de conforto e proteção. Dobrei o cobertor azul cor da noite e guardei, junto ao travesseiro, no alto do guarda-fatos. Forrei a cama com fronha, também azul. Coloquei o pinguim de pano num canto, presente de um passado que ainda não desejo remoto. Separei as peças de roupa e guardei nas enumeradas gavetas. Camisas estampadas em duas distintas. Pretas, brancas e mesmo as listradas, em outra. Roupas de baixo, meias e toucas numa outra caixa corrediça. Agasalhos em cabides, sobre as camisas de botão. Bermudas e calças suspensas na estoqueira, tais quais os cachecóis e cintos. Óculos escuros, colares, pulseiras, entre outros acessórios, além de livros, coleções de revistas, discos, filmes, diários e frascos perfumados, todos em seus espaços, acomodados e conciliados. Fotografias e pequenas lembranças de papel em caixas coloridas, sintetizando os anos, tirando o sono das reminiscências ao lado do leito. Sapatos e sandálias sob o canapé estofado de couro branco, amarelo, vermelho e azul. Pequenas esculturas no peitoril da janela. Na escrivaninha adesivada, incensório indígena, porta-canetas, castiçal, um frade bebendo vinho, feito de gesso pintado, um gnomo sentado num trono de madeira, um alienígena folheando o livro da vida, um porta-retratos chinês com a imagem de minha irmã Nalim ainda pequena e revistas, marcando as páginas da leitura de mundo que ainda não fiz. Pus de acordo os textos com o pensamento, harmonizei-me com a sensação de pertencimento, acendi um incenso de benjoim, ouvi o silêncio e tomei um vinho. "It's a black fly in your Chardonnay", dizia a voz da canção. Pus-me no assento, cruzei as pernas, fechei os olhos, inebriado. Tudo em volta parecia dádiva de um universo inteirado. Todo o cosmos, toda terra habitável, todo gênero humano, e mesmo o que excede as forças da natureza, está ali. Meu quarto, nave que trafego só e errante. Nesta hora quente do dia, meu quarto é meu abrigo, meu vão cintilante.






